Nas redes sociais, o discurso é de defesa do povo, da família e do “Brasil real”. No plenário da Câmara, porém, a prática de parte da direita parlamentar revela outra face: a de quem se mobiliza politicamente para proteger lideranças e agendas ideológicas, mas vira as costas para políticas públicas básicas. O contraste ficou evidente na chamada caminhada “Acorda Brasil”, apresentada como ato cívico, mas que na prática serviu para defender Jair Bolsonaro e pressionar por anistia a envolvidos em atos golpistas.

Pouco depois da encenação patriótica, veio o teste concreto: a primeira votação do projeto “Gás para Todos”, voltado a garantir acesso ao gás de cozinha para famílias de baixa renda. O resultado expôs a contradição. Deputados que se dizem porta-vozes dos mais pobres votaram contra uma política que impacta diretamente o orçamento doméstico de milhões de brasileiros.

Entre os votos contrários estão nomes como Adriana Ventura, Marcel van Hattem, Ricardo Salles e Luiz Lima, do Novo; Bia Kicis, Carlos Jordy, Nikolas Ferreira, Zé Trovão, Mario Frias, Julia Zanatta e outros do PL; além de parlamentares do PP, União Brasil e PSDB que aderem ao mesmo discurso nas redes. A lista é extensa e revela um padrão, não um caso isolado.

O episódio desmonta a retórica do “povo acima de tudo”. Quando a pauta é simbólica, ideológica ou voltada à blindagem política, há mobilização, lives e hashtags. Quando a proposta é concreta, social e redistributiva, o voto é contra. Defender anistia para golpistas parece unir mais do que garantir gás na mesa de quem precisa.

A incoerência cobra um preço alto: banaliza o discurso político, aprofunda a desconfiança da população e mostra que, para parte da direita, o povo serve mais como slogan do que como prioridade real.