No primeiro dia de votações após o recesso, o Congresso Nacional mostrou agilidade rara — mas não para enfrentar os problemas do país. Em poucas horas, deputados e senadores aprovaram um pacote de projetos que cria gratificações e cargos capazes de elevar salários do Legislativo a até R$ 77 mil, muito acima do teto constitucional de R$ 46.366,19. Tudo isso por meio de votações simbólicas, sem debate aprofundado e com amplo acordo entre governo e oposição.

O mecanismo central do chamado “fura-teto” é a Gratificação de Desempenho e Alinhamento Estratégico (GDAE), que pode variar de 40% a 100% do salário-base. Soma-se a isso a licença compensatória: a cada três dias trabalhados, o servidor ganha um dia de folga, que pode ser convertido em dinheiro caso não seja usado. Como indenização, o valor fica fora do teto e isento de imposto de renda. Na prática, cria-se um atalho legal para inflar remunerações sem tocar formalmente no teto constitucional.

O impacto fiscal não é pequeno. As medidas devem custar cerca de R$ 6 bilhões apenas em 2026, sendo aproximadamente R$ 1 bilhão em gratificações no Legislativo e R$ 5,3 bilhões com a criação de milhares de cargos no Executivo. Ainda assim, o pacote avançou em ritmo relâmpago. Um dos projetos foi protocolado pouco depois do meio-dia e aprovado antes das três da tarde, como denunciado pela deputada Adriana Ventura (Novo-SP), uma das poucas vozes contrárias no plenário.

A contradição salta aos olhos. Enquanto o discurso público insiste em austeridade, responsabilidade fiscal e sacrifícios da população, o Parlamento se mobiliza para assegurar benefícios próprios. Deputados chegaram a admitir que servidores passarão a ganhar mais do que parlamentares eleitos, sob o argumento genérico de “valorização dos cargos”. O que não se enfrenta, porém, é a raiz do problema: os supersalários no serviço público, especialmente no Judiciário e nos altos escalões do Estado.

Mesmo entre parlamentares favoráveis ao reajuste linear, houve críticas aos penduricalhos. O deputado Tarcísio Motta (PSOL-RJ) reconheceu a necessidade de correção salarial, mas apontou o erro de institucionalizar mecanismos que burlam o teto. Já Kim Kataguiri (União-SP) foi direto ao afirmar que o Congresso prefere criar supersalários para si em vez de enfrentar privilégios históricos de outras carreiras.

O pacote ainda incluiu a criação de 16 mil cargos no Ministério da Educação, 1.500 no Ministério da Gestão e um novo Instituto Federal no Sertão Paraibano, em Patos, base eleitoral do presidente da Câmara, Hugo Motta. A coincidência territorial reforça a percepção de que prioridades nacionais seguem misturadas a interesses corporativos e regionais.

No fim, a mensagem passada à sociedade é clara e preocupante: quando o assunto é benefício próprio, o Congresso é rápido, unido e eficiente. Quando se trata de cortar privilégios, enfrentar desigualdades ou responder às demandas urgentes da população, o ritmo muda — e a pressa desaparece.